A liquidez da sociedade: um mal que destrói a Igreja

pastor Jecer Goes Ferreira
O Pr. Jecer Goes é Presidente da AD Canaã e Articulista do Voz no Deserto

O grande expoente do pensamento sobre a subjetividade humana, “monstro” da Sociologia, o judeu polonês Zygmunt Bauman afirma que a “barbárie que culminará com o fim da civilização” passa de forma inexorável pela egoísta “individualização” da sociedade. O capital, a loucura pela visibilidade e o descontrole emocional que motiva o consumo, tentando preencher o vazio da alma, tem tornado o ser humano sem “amor, sem vínculo, sem limite, sem respeito às regras, às normas, às alianças” etc.

Uma análise paralela às causas que podem contribuir para esta individualização deve passar pelo fenômeno da conectividade que deixa as pessoas isoladas das que estão em sua volta e conectadas virtualmente a outras que estão distantes, o que permite uma rede de convívio do cotidiano. O homem é, sem dúvida alguma, um ser gregário, e certamente não teríamos chegado ao nível de desenvolvimento tecnológico que chegamos se vivêssemos em comunidades isoladas. Desta forma, os celulares de última geração desenvolvidos na Finlândia que são fabricados na China pela mão de obra mais barata, não chegariam às mãos dos povos nos países menos desenvolvidos.

A “barbárie” está estabelecida, em parceria com a tecnologia de última geração. O soldado encapuzado corta o pescoço do refém diante das câmeras dos seus smartphones em nome de suas causas e postam imediatamente nas redes sociais, que teoricamente foram desenvolvidas para aproximar as pessoas. Vale a pergunta: Se defendem uma causa justa, porque estão encapuzados? Até onde iremos com todo esse ódio interativo? Paradoxalmente, o desenvolvimento desta interatividade tem quebrado os laços entre os indivíduos, isolando-os uns dos outros em suas herméticas bolhas de individualidade.

A Europa, berço da civilização e do pensamento filosófico, que durante séculos norteou o processo civilizatório ao adotar o hedonismo (culto aos prazeres e liberdade) como objetivo da vida, criou a cultura do controle da natalidade com a única finalidade de gozarem a vida. “Para que ter filhos?”. Sexo é prazer, nada de procriação. Pílula feminina diária e do dia seguinte, contraceptivos e políticas que favorecem práticas abortivas foram dizimando paulatinamente os nascimentos. “Parto normal? Para que esta besteira? Acaba com a mulher. Cirurgia? Dar de mamar? Prejudica a estética, derruba o peito. Eros é o que importa. Prazer, tão somente prazer é o que importa”. Tudo isto vem envelhecendo a população, destruindo os valores e adoecendo o sujeito.

Como exemplo dessa realidade, podemos ver a China, que sem braços para trabalhar, como é a “fábrica do mundo”, falta quem faça os serviços que lhes garantam as mordomias à altura do dinheiro que conseguiram e começaram a receber as levas de jovens de países menos desenvolvidos que chegam, se instalam, trazem suas mulheres ou casam com as jovens locais e assim o caldo cultural e étnico vai se transformando continuamente, até o momento que se derem conta que os “inimigos” bárbaros que eles, no passado exploravam, agora estão dentro de suas casas e são herdeiros de suas riquezas, pelo trabalho, competência, esforço próprio ou herança recebidas de suas “lindas filhas brancas” que vieram a se casar com homens de raças e credos diferentes.

Na onda do individualismo, os que ascendem das classes sociais menos favorecidas, ao chegarem a um status melhor, já se tornam arrogantes e tornam-se patrões feudais, passando a olhar com desprezo os que ainda se encontram por ignorância na falta de cultura ou oportunidade no lugar onde estiveram a pouco tempo.

Ao lermos o extraordinário apóstolo S. Paulo escrevendo a Timóteo, o Espírito Santo lhe revela como seriam os homens no final dos tempos. Ele diz: “Além do mais, entenda isto. Surgirão tempos de provação. As pessoas serão egoístas, amantes do dinheiro, orgulhosas, arrogantes, insultantes, desobedientes aos pais, ingratas, profanas, desalmadas, implacáveis, caluniadoras, descontroladas, violentas, odiosas do bem, traidoras, obstinadas, cheias de prepotência, mais amantes dos prazeres que de Deus, e, ainda que mantenham uma forma exterior de religiosidade, negam seu poder. Afaste-se dessas pessoas” (2 Timóteo 3:1-5).

É incrível como o entenebrecimento e embotamento da mente têm conduzido os homens às práticas que produzem a fragmentação e a dissolução das instituições, e, o terrível, é sabermos que, mesmo avisados, não se vê um cuidado, uma vigilância da parte dos tais. Estamos insensíveis. Não nos interessa a “unidade, a comunhão, a segurança institucional”. O que nós queremos é alimentar nossos “umbigos”, nossos prazeres, nossas vontades, fantasias e vaidades. Não nos interessa os valores familiares, éticos, morais, espirituais, religiosos e denominacionais. Damos total vazão aos deuses que norteiam o destino da sociedade: “PLUTO, o deus da ostentação, da visibilidade, da posição, do ter e da individualidade; EROS, o deus da erotização, da licenciosidade, da depravação, da orgia e do culto ao corpo; e MAMOM, onde adora-se o dinheiro, abolindo a vocação, o amor, a solidariedade, o altruísmo e o cuidado, inclusive à obra de Deus. Há uma fome transloucada pela vida nababesca, onde fazer o serviço litúrgico espiritual sem a vantagem e o ganho exacerbado do dinheiro não vale a pena.

Cheios destes sentimentos fundados no império dos sentidos, homens que dizem conhecer a Palavra buscam “criar igrejas” com o fim de viabilizar ganhos que trabalhos seculares não lhes permitiriam, e atraindo incautos iludidos por mentiras e engodados por suas próprias rebeldias, seguem a pseudos líderes que perdem a unção de Deus ao elegerem para si os deuses deste século e os guiam com promessas de que serão abençoados se pagarem por isto.

Estes comportamentos têm excluído a presença de Deus das instituições, deixando-as sem vida, sem graça, sem espiritualidade e sem um olhar vibrátil, que lhes permita contemplar o belo, o extraordinário, o singelo e o maravilhoso. O que vem após isso é o surgimento de homens “mecânicos” que, uma vez sem a sensibilidade de ouvir a voz de Deus, regem-se pelas leis dos homens. Daí, não termos mais igreja de ATOS, onde prevalecia a “unidade, o temor, o carisma, a oração, o conhecimento da e na Palavra, os milagres, os prodígios e o crescimento quantitativo” (At 2:37-47); e sim, uma igreja que sobrevive às custas de ATAS, onde o cartório ou o birô do juiz é quem decide quem é quem. São igrejas que seus estatutos possuem mais leis que a própria Escritura Sagrada. Igrejas que seus ministros não oram mais, não dialogam mais, não se rendem mais aos pés do Mestre. Igrejas em que a caneta do pastor é o elemento norteador dos rumos e decisões e não mais o Espírito Santo. Igrejas que os salários são a única exigência de seus líderes, sem falar dos carros que têm a chancela de indicar pela marca e o valor o nível de pastor que é o dono.

Esse comportamento líquido, num espectro coletivo e, ao mesmo tempo, cristalizado, num espectro individualista, tem produzido homens que não se abalam em destruir a fé, a esperança e os sentimentos dos outros. No contexto evangélico, muitos dos que se dizem líderes desrespeitam normas, desacatam instituições, não aceitam mais a ética hierárquica e rompem alianças, quebram a unidade, se insurgem contra os seus líderes e não estão nem aí para o que vai acontecer às vidas que não comungam com o sistema de “panelinhas” instituído pelos tais. São homens que visam somente e unicamente seus “desejos e projetos”, que não amam mais, não sabem o que é vocação, altruísmo, solidariedade etc.

A grande pergunta que não cala é: Tem jeito? Haverá alguma mudança no comportamento do ser humano? Confesso que tenho dúvida quase que irreversível. Basta olhar para a geração que estamos produzindo: Não trabalha; frequenta a sala de aula, mas não estuda; e não tem referencial paterno e materno. Logo, não respeitará as autoridades nem muito menos suas relações, quer sejam afetivas que sejam sociais. Ao olharmos as profecias, creio que chegou a hora em que todos devam proclamar: “Maranata! Ora vem Senhor Jesus!”.

Que o Senhor nos ajude.

Pr. Jecer Goes Ferreira

Líder da Assembleia de Deus Canaã

 

 

 

 

Carlos Castro

Postado por: Carlos Castro

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