Lava Jato: um jogo de xadrez com xeque-mate inverso

sergio-moro
Sergio Moro

Em síntese, à Lava Jato, o PT aparenta ser o “meio metodológico”, e não o fim das investigações, ou o seu objetivo final.

A Lava Jato está muito bem montada e estruturada enquanto campo jurídico que se move para anular os movimentos do campo político. E os procuradores e delegados responsáveis pelas investigações sabem, muito bem, que se trata de um jogo, e que, nesse caso, é preciso movimentar cada peça com cuidado e astúcia.

Digo cuidado por que este campo jurídico tem a clara noção de que brechas nas conduções das investigações e o orquestramento do enredo que se mostra à opinião pública podem pôr a pique a nau investigativa.

Astúcia, por que, em uma operação dessa magnitude, é preciso, muitas vezes, aparentar “errar” para se ter um grande acerto. Quer dizer, o que, aparentemente surge como passo atrás, na verdade tem como fito, passos à frente (a condução coercitiva de Lula e a divulgação do seu depoimento, por exemplo, podem ter sido uma isca para pescar a opinião pública, ou para mostrar que se tem pouca coisa concreta sobre os fatos relacionados ao ex-presidente, quando, na verdade, haveria provas robustas).

O fato é que, enquanto parte de um jogo, e mais, de um embate entre campos, a Lava Jato não joga todas as cartas ou todo o seu “capital” de uma vez. Ela espera as ações dos “adversários” (a aparente paralisia, calmaria, nas investigações em determinados momentos já é um movimento), e daí lança-se para anular-lhes as estratégias. Percebeu-se, por exemplo, uma movimentação de senadores e deputados em torno do impeachment de Dilma. Também observou-se a movimentação do Lula em direção ao Planalto.

Na ótica dos investigadores, esses dois movimentos corriam para querer dar um xeque-mate no modo de operar da Lava Jato, buscando, para isso, estabilizar uma cultura política que o MP e a PF buscam desestabilizar e combater. A tentativa de estabilização objetiva-se em dois arranjos prováveis: uma possível reorganização do campo político via impeachment, e uma reorganização via Lula blindado.

Não se trata dessa blindagem que dizem estar relacionada ao foro privilegiado no STF, pois o foro privilegiado para Lula não é o Supremo, mas a estrutura institucional e a consequente capacidade de reordenamento político que ele adquire ao assumir um posto no Planalto.

E essa parece ser a visão de parte dos agentes políticos do Congresso. Para eles, a presença de Lula significa não a salvação da política econômica do governo, em si, mas a salvação da economia da política. E o próprio Lula também vê como excelente estratégia de blindagem para si o se alinhar ao campo político e tentar reorganizá-lo, que, paralelamente, vê como uma arma a mais a chegada do ex-presidente ao Planalto.

Dessarte, como antídoto a esses movimentos (a divulgação da delação do senador Delcídio e o grampo envolvendo Lula), a Lava Jato lançou inúmeras minas em vários dos deputados e senadores, do governo e da oposição, que poderiam ser fios no remendo do tecido político que, concomitantemente, o impeachment e Lula buscarão consertar. De forma mais clara: a Lava Jato teme que tanto o impeachment quanto a “saída Lula” reestruturem as forças que a operação intenta enfraquecer, o que explica, agora, a divulgação de delações que envolvem políticos da base, mas também de partidos oposicionistas. Isso é sintomático e revela que, para o MP e a PF, a melhor forma de desmontar este sistema é não permitindo que ele se reorganize.

Tal embate entre campos mostra, primeiramente, a reviravolta e a capacidade de metamorfose da esfera política na busca pela sobrevivência, tendo, qual um paradoxo, tanto o impeachment quanto a chegada de Lula como “saídas” para a sua crise interna. Se o primeiro parecer a saída mais próxima, o Congresso irá agarrá-lo. Mas se virem no próprio Lula o imã para aglutinar as forças políticas, até os náufragos da oposição entrarão no seu barco.

Em segundo lugar, essas movimentações expressam, também, que a Lava Jato possui um grande arsenal de elementos factuais esperando para ser usado, sabedora de que, nesse tipo de luta, é importante ter um estoque de armas, mas aparentar estar desarmado. Outras vezes, é preciso mostrar um pouco do que se tem, sem mostrar o todo. Faz parte da estratégia do funcionamento do campo.

Diante de tudo isso, talvez seja difícil falar em “perseguição ao PT”, per si. É razoável dizer que se persiga uma estrutura que, por razões de estratégias de classes e pelos próprios erros do partido, está simbolizada no PT. Outrossim, talvez o foco esteja sobre o PT face ao fato deste ser o elemento que dá, neste momento, legitimidade e apoio às investigações. Em síntese, à Lava Jato, o PT aparenta ser o “meio metodológico”, e não o fim das investigações, ou o seu objetivo final.

Se assim o é, então, qual seria este grand finale? Nem a Lava Jato sabe. Na verdade, como disputa de campos, o jogo está em aberto, e como narrativa social, não existe um “destino”, um lugar onde se vai chegar. Tudo dependerá dos arranjos econômicos, políticos, sociais e jurídicos, pois nenhum campo social funciona de forma independente de outros campos.

Hipótese: é possível pensar que, com o desmonte do que o PT representa, o interesse dos co-atores (sic) escolhidos dessa narrativa (jornais, revistas, TVs) cesse e, com isso, o calor da opinião pública, que dá energia à Lava Jato, sofra um repentino resfriamento. Seria o fim das operações? Não sabemos. Talvez os procuradores e delegados já tenham esse cenário em mente, e acreditem que o deslocamento das investigações do PT para quem ocupar o seu lugar será o caminho natural.

Mas não será. Terão de combinar com os outros. Dependerá, com efeito, da reorquestração de uma parceria entre veículos de comunicação e opinião pública que até aqui logrou êxito. E é duvidoso dizer que esse entrelaçamento irá continuar. Os agentes midiáticos têm as notícias como produto, sendo pouco proveitoso divulgá-las enfaticamente face à “depressão petista” (com o PT no centro das atenções, a notícia inflacionou, como nunca antes).

Além disso, a entrada de outros agentes políticos em cena pode fazer com que o interesse dos agentes econômicos (incluindo a grande imprensa) esteja mais coadunado com o daqueles, não sendo profícuo a nenhum dos dois uma profunda oferta de suporte midiático às investigações, como vemos agora.

A despeito dessas variáveis, pelo menos uma coisa, por ora, está clara: esses delegados e procuradores sabem que estão – e o trocadilho aqui é necessário – em um jogo de xadrez. Contudo, em se tratando de uma relação social onde o êxito de um campo é corolário da negociação com outros campos com interesses que dependem dos contextos, precisa-se tomar muito cuidado, pois aqui o xeque-mate é inverso: o xeque-mate no outro pode ser um xeque-mate em si mesmo.

Dito de outra forma, paradoxalmente, o PT pode ser o elemento que mantém o sucesso desta operação, mas também pode ser o ponto que, ao atingi-lo, significará o seu declínio.

Carlos Castro

Postado por: Carlos Castro

Comentários

*os comentários aqui apresentados não representam a opinião do Portal JVD

Deixe uma resposta