A Igreja e as manifestações no Brasil

Pr. Jecer Goes - Líder da Assembleia de Deus Canaã
Pr. Jecer Goes – Líder da Assembleia de Deus Canaã

Tenho sido arguido por vários irmãos sobre minha visão com relação aos episódios que viraram o Brasil de ponta cabeça, de norte a sul. Refleti sobre meus sermões nestes últimos dez anos, onde referi-me que algo estava para acontecer, não só na Igreja, mas também no país. Lembro-me que por várias vezes parafraseando o jargão “precisamos passar o Brasil a limpo”, do apresentador jornalístico Boris Casoy, dizia: Deus vai passar o Brasil e a Igreja a limpo. Isto gerou em alguns, tema de discussão, descrédito, menosprezo e críticas que eu queria apenas aparecer.

De repente estamos vivendo toda essa celeuma gerada por sentimentos de descrença e desencanto que se apoderou de boa parte dos brasileiros, fruto da decadência das instituições, prática de roubalheira por alguns, perda de credibilidade de outros, descuido das leis por parte de nossos magistrados, ausência de segurança por parte dos responsáveis por ela, falta de educação eficiente para nossos filhos (o mais triste, por parte do Estado, o responsável pela formação do cidadão), bem como a corrupção generalizada nos setores do serviço público.

Estamos vivendo um descalabro moral sem precedentes, creio que nunca visto antes na história desse país.

Deve-se salientar que não estamos vivendo na Idade Média. Estamos sim, na pós-modernidade. Porém, não há nada que possa ser comparado aos acontecimentos ocorridos, historicamente falando, com outros acontecimentos libertários, como a “queda da Bastilha” na França do século XVIII, por exemplo.

É motivo de reflexão séria quando lemos as pesquisas feitas durante as manifestações, em que os jovens declararam seus sentimentos a respeito de seus sonhos. Segundo a pesquisa, os jovens “confiam mais na família, em Deus e em si próprio que no Estado”. Entre os ouvidos, “53% afirmam que o próprio esforço é o principal fator que contribui para sua vida melhorar, enquanto que o governo foi citado por apenas 2% dos entrevistados”.

É impossível negar que se esteja vivendo algo totalmente novo em nossa nação. O mais interessante é que esse algo novo foge totalmente da estrutura mecânica e do sistema político adotado culturalmente em nosso país. O movimento se apresenta de forma multifacetada e independente.

É articulado pelas redes sociais e não pela mídia oficial. É encabeçado por um espectro importante da sociedade e não por lideranças partidárias. Interessante é que nossos gestores consultavam sociólogos, psicólogos, antropólogos, cientistas políticos e velhas lideranças partidárias fazendo a mesma pergunta: “O que é isso? O que está acontecendo?” Ora, bastava lê os cartazes e as faixas. Bastava abrir os ouvidos para ouvir os gritos de uma massa indignada.

O que nos preocupa ainda mais é que a PEC 37 tinha centenas de parlamentares a favor de tirar o direito de investigação do Ministério Público. No entanto, depois das manifestações, os mesmos votaram contra, o que merece uma reflexão a respeito dos mesmos, tipo: é válido acreditar neles? Porque mudam com tanta facilidade? Porque não há neles segurança naquilo que defendem?

A análise sociológica dessas mudanças e seus desdobramentos, a partir das manifestações, revelam simplesmente a perda de credibilidade das nossas instituições, inclusive a Igreja. Basta olhar os cartazes, muitos com dizeres incriminando líderes evangélicos, fruto de seus comportamentos nada convincente para pessoas que se propõe a representar um grupo social idôneo como a Igreja do Senhor Jesus.

O reajuste de vinte centavos foi a gota d’água ou estopim que levou a estourar a bomba da tomada de consciência de uma população, que assistindo aos bilhões gastos com estádios de primeiro mundo, sofre todos os dias as mazelas de viver em um país sem a sensibilidade de quem vive a realidade do cotidiano. Esta conclusão levou a maioria a protestar sobre questões que já incomodam há tempos a população.

Vivemos um novo momento onde o “deixa pra lá” e o “não vale a pena” está sendo substituído pelo “ei, vem pra rua, vem”. A pergunta é: No âmbito evangélico, até que ponto a tomada de consciência da população, influirá nos mecanismos de defesa da sociedade civil daqui para frente, permitindo impunemente as histórias e escândalos de tomada de dinheiro em troca de bênçãos?

Precisamos entender que a Igreja é o local de apoio ao sofrimento da alma humana, não e jamais será o cavalo de batalha daqueles que pregam o evangelho da porfia. A Igreja precisa ser fundamentada na cristalina palavra de Deus, sem desvio, sem excessos, sem exageros e sem omissão.

Parece que a profecia de Isaías se cumpre literalmente em nosso país, em nossos dias. “Porque as vossas mãos estão contaminadas de sangue, e os vossos dedos de iniquidade; os vossos lábios falam mentiras, e a vossa língua profere maldade. Ninguém há que clame pela justiça, ninguém que compareça em juízo pela verdade; confiam no que é nulo e andam falando mentiras; concebem o mal e dão à luz a iniquidade” (Is 59:3-4). O resultado desse comportamento levou o povo às ruas. É incrível como não sabemos mais o que fazer para acreditar em nossos gestores e representantes. A cada eleição nos propomos mudar o perfil dos mesmos e de repente nos decepcionamos. Interessante é que esta ocorrência é no mundo inteiro. Vivemos dias em que nenhum governante ou representante consegue apoio do povo. Na campanha, o candidato é ovacionado. Ao assumir seu posto, é vaiado e desacreditado.

É obvio que, à luz da Bíblia Sagrada, estamos nos preparando ou já estamos preparados, para a chegada do Anticristo, o homem do pecado? É aquele que dirá: “Resolverei tudo”. Aí, o povo sairá às praças para adorá-lo como Deus. É incrível como neste momento nenhum gestor tem a garantia de permanência em seu cargo. Há um descontentamento generalizado na humanidade. Até parece que já é a plataforma sendo montada para o governo dele.

O profeta Jeremias, usado por Deus, adverte às nações dizendo: “Ouvi agora isto, ó povo insensato e sem entendimento, que tendes olhos e não vedes, tendes ouvidos e não ouvis. Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra: Os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam de mãos dadas com eles; e é o que deseja o meu povo. Porém que fareis quando estas coisas chegarem ao seu fim?” (Jr 5:21,30-31).

É momento de a Igreja realizar duas coisas importantes: Primeira, orar pela nação. Segunda, realizar a grande comissão inaugurada pelo mestre Jesus, evangelizar as pessoas, coisa que a Igreja tem deixado a desejar, fruto do evangelho midiático que desviou o foco, buscando apenas a mercantilização da fé.

Estamos diante de um grande desafio. Essas manifestações mudaram para sempre o Brasil. O sonho de nossos líderes é realizar um plebiscito para legitimar uma nova constituição, de forma específica. Com ela, o risco de sermos apenados, fruto da forma insensata e inconveniente em que temos nos apresentado à sociedade brasileira, através de alguns líderes que tem tomado para si a legalidade de representar-nos (sem o aval da maioria). Já existem vozes contrárias à concessão de TV e rádio aos evangélicos (se somos laico, porque não aos católicos também?).

O momento é de reflexão. A questão é: Quem está disposto a fazê-la? Como se sabe, a teologia da prosperidade profissionalizou e destruiu a essência do sagrado, individualizou os evangélicos, tirou o verdadeiro evangelho do coração do homem e inflacionou a vocação.

Gritar aos quatro cantos do país que hoje somos 40 milhões não nos chancela e não nos dá o direito (ainda) de acharmos que podemos insultar uma nação que tem uma cultura contrária ao evangelho. É verdade que temos a felicidade de possivelmente juntar o maior grupo de pessoas unidas em torno de um mesmo conjunto de ideias ou segmento de opinião. Porém, estamos bem distantes de sermos maioria e legitimados como donos do poder religioso. Precisamos sim, de nos apresentar à nação brasileira como pessoas idôneas, responsáveis e, quem sabe, pensar sermos pessoas maduras, competentes e com uma visão macro do que é um país que entra na fase de maturidade democrática e que busca mudanças, e não comportar-nos de forma que venha gerar escândalos como os que vêm ocorrendo dia após dia por todos os cantos desse país.

Acho que as manifestações das ruas servem como signos, modelo para o povo que “conhece” verdadeiramente o essencial evangelho, a sair da masmorra em que se encontra em busca de mudanças também, ditando cartazes tipo: “Fora os vendilhões do templo”, “Fora a teologia da prosperidade”, “Fora os que vendem o evangelho da graça e de graça na TV”. Enfim, é hora de também mostrarmos nossa indignação. A questão é: “Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se HUMILHAR, e ORAR, e me BUSCAR e se CONVERTER dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra” (2 Cr.7:14).

A Deus toda a glória.

Pr. Jecer Goes – Líder da Assembleia de Deus Canaã

 

 

 

 

Carlos Castro

Postado por: Carlos Castro

Comentários

*os comentários aqui apresentados não representam a opinião do Portal JVD

Deixe uma resposta